quinta-feira, 19 de junho de 2008

many shades of black - raconteurs


Vá em frente, vá em frente, vá em frente
E arrebente tudo no chão
Pegue o que sobrou e
E leve-o com você pela porta…

Veja se eu choro
Veja se eu derramo uma só lágrima de lastima
Eu não posso dizer que tenha sido tão bom
Não, de fato tem sido um ano livre desperdiçado

Todos vêem
E qualquer um concorda
Que eu e você estamos errados
E tem sido assim por muito tempo

Aceite como é
E seja agradecido quando terminar
Existem muitas maneiras de agir
E existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto

desabafe (desabafe totalmente)
Diga o que se passa na sua cabeça
Você pode chutar e gritar
e berrar e dizer coisas
que são tão grosseiras

Yeah,
Veja se eu me importo
E veja se eu permaneço firme ou se eu cedo
Porque no fundo da minha mente,
E na ponta de minha língua
Esta a resposta para isso tudo...

Todos vêem
E qualquer um concorda
Que eu e você estamos errados
E tem sido assim por muito tempo

Aceite como é
E seja agradecido quando terminar
Existem muitas maneiras de agir
E existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto
Yeah, existem muitos tons de preto

Todos vêem
E qualquer um concorda
Que eu e você estamos errados
E tem sido assim por muito tempo

Aceite como é
E seja agradecido quando terminar
Existem muitas maneiras de agir
E você nao pode toma-lo de volta
Não, você não pode toma-lo de volta
Existem muitos tons de preto,
Existem muitos tons de preto,
Yeah, existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto
Yeah, existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto
Yeah, existem muitos tons de preto
Existem muitos tons de preto

Vá em frente.

musica - many shades of black
artista - raconteurs
disco - consoler of the lonely
data do lançamento - 2008

terça-feira, 3 de junho de 2008

eu sou o maior cara que conheço.


Sentado aqui nesta sala de paredes mal pintadas e com moveis destruídos pensando em tudo que houve, chego de leve a dar um sorriso amarelo. Algumas coisas TEM que acontecer para algumas pessoas ou ao menos estas certas pessoas TEM que passar por fortes provas de caráter na vida. Foi de dificuldades que o mundo foi construído, como diz o velho ditado “ a rapadura é doce, mas não é mole não”; então só posso de certa forma agradecer por tudo que passei nesta vida dura que Deus me apresentou. Não podem ser sem lagrimas nos olhos que eu lembro de tudo que me aconteceu nos últimos seis meses e as marcas que me deixaram no coração e os males que se instalaram no âmago do meu ser, mas tudo muito justo no modo que eu vejo as coisas, repito algumas pessoas TEM que passar por provas de fogo para alcançar o seu fim por melhor ou pior que sejam as suas implicações. Dizem que nós não nascemos com alma, nós a conquistamos. Mas isso é uma questão para filósofos de plantão, voltemos a questão.calma, amigo leitor, já chego lá. Só são precisos algumas considerações para que o amigo leitor não faça idéia errada de quem esta contando esta historia. Sempre me vi como justo e amigável, dei e recebi muitas coisas na vida, amizades, dinheiro, posição social, carros e casas. Mas tem outro ditado que diz “para os amigos o certo, para os inimigos justiça”; esta é bem a frase que se encaixa na minha historia. Para os dois lados que podem deixar abertos esta frase. Na vida a gente perde e ganha, algumas vitórias nos fazem gigantes e algumas derrotas nos deixam abaixo do cu do cachorro. Posso dizer que vivi dos dois lados desta frase e sei a verdade contida nesta afirmação. Bom já falei demais, vamos aos fatos.
Eu era um jornalista ate que bem respeitável num jornal de media tiragem, mas que tinha um publico cativo, e de certo destaque na sociedade local. Comecei como repórter policial, passando noites e noites em claro de plantão numa delegacia no centro. Aos poucos foi melhorando as coisas, passei para setor político onde fiz amizades das mais variadas e ate seis meses atrás tinha a mamata de fazer só o editorial do jornal de domingo. Nunca tive problemas com o trabalho, sempre foi um prazer para mim poder exercer a profissão que sempre quis,enquanto muita gente acorda para fazer um trabalho que odeia . Me sentia um privilegiado por isso. tinha uma ótima relação com meus colegas de trabalho. Tudo corria as mil maravilhas para mim, mas nunca aprendi a manter o olho no padre e outro na missa. Chegando em casa um dia, depois de mais um dia jogando paciência o dia todo no trabalho e fazendo cara de ocupadíssimo, cheguei em casa e não tinha ninguém, chamei por minha mulher e ninguém respondeu. Olhei no quarto do meu filho e nada. Ninguém em casa. Ótimo isso, vou sentar para ver tevê e tomar uma cerveja em paz , sem ninguém para me aporrinhar o saco. Tirei o paletó no meu quarto amplo e muito bem mobiliado. Sentei na cama tirei os sapatos e depois deitei um pouco na cama, ouvindo o silencio da casa. Coisa rara naquele tempo, filho de dez anos correndo para lá e para cá, fazendo algazarra. Minha mulher já preparando a janta na cozinha vendo novela das seis. Mas hoje só havia o silencio( hoje eu sei que era a calma antes da tempestade) desfrutei daquele privilegio por uns quinze minutos e já descalço e sem gravata fui a cozinha. Cheguei lá e foi aí que tudo começou. Tinha um bilhete na porta da geladeira escrito com letras garrafais “ REGINALDO ISSO NÃO TEM DESCULPA!!! NÃO TOLERO MAL CARATISMO, SEMPRE FUI UMA ESPOSA FIEL, MAS ISSO PASSOU DOS LIMITES!!! PEGUEI MINHAS COISAS E FUI EMBORA, MEU ADVOGADO VAI ENTRAR EM CONTATO COM OS PAPEIS DA NOSSA SEPARAÇÃO!!! NÃO TENTE ME ACHAR, EU TENHO ASCO DE VOCÊ!! SEU FILHO DA PUTA!”. “Porra será que ela descobriu sobre a Claudia? Impossível, a Claudia nem sabe que sou casado”. Ficou sem palavras, pegou a cerveja e foi para a sala. Sentou na poltrona e ate esqueceu da tevê, ficou pensando no que tinha causado aquela situação. Não tinha resposta. Tomou diversas cervejas ate as dez da noite, ai partiu para o whisky ate as onze quando capotou ali na poltrona mesmo, com meio copo de whisky sem gelo. Acordou lá pelas oito e meia da manha nem sequer fez a barba e foi para o trabalho. Chegou lá deu o seu tradicional bom dia para o porteiro que estava ali desde a fundação do jornal há trinta anos e este nem respondeu. Muito estranho isso, pensou na subida do elevador ate o décimo andar onde ficava sua sala. Chegando lá, a secretaria lhe informou que o diretor queria ter uma palavra com ele. Botou a pasta em cima da mesa e foi ate a sala do diretor, que logo que o viu pelo vidro da sala de espera mandou entrar imediatamente. “Reginaldo, há quanto tempo nos conhecemos?vinte anos, não? Desde aqueles temos das noites de plantão na delegacia, não é?” “sim, eu acho que sim, Humberto. O que esta havendo?”. “hoje recebemos um pedido lá de cima para te despedir, disseram que não era para perguntar o motivo, mas que não podíamos mais ter você entre nós!”. Reginaldo já não entendia porra nenhuma do que estava acontecendo, sentou numa cadeira e começou a chorar. “olha Humberto, ontem minha mulher me deixou e eu ainda nem sei o motivo.E agora isso? Você não pode me dizer o motivo real? Vamos, não podem fazer isso assim sem dar uma razão!!”. Reginaldo já soluçava e seus olhos estavam encharcados. “serio Reginaldo, deram motivos vagos Reginaldo, mas disseram que ate a policia pode entrar nesta historia e você esta em maus lençóis que você andou com uma turma da pesada e agora vai estourar no seu colo. Só disseram isso.” Reginaldo enxugou as lagrimas e em um estado de dar dó se recompôs e saiu em passos lentos em direção a sua sala, lá recolheu alguns pertences e voltou para a garagem entrou no carro e voltou direto para casa. Chegando lá pegou direto o whisky ainda as onze da manhã fechou os olhos e bebeu.
Três da tarde o telefone tocou, reginaldo em estado deplorável atendeu “alô?”; “Reginaldo sabe quem esta falando?”; “sim”, “então sabe o que houve, não? “ sim”, e desligou o telefone. Finalmente ele se levantou da poltrona da sala e foi em direção ao quarto pensando “porra, aqueles canalhas da trigésima oitava cagaram para dentro, filhos da puta. Depois de quinze anos eles deram com a língua nos dentes podres deles. Agora vai aparecer em tudo que é jornal, no meu inclusive, que eu e mais uma cambada de policiais vagabundos extorquíamos, torturávamos, e matávamos traficantes de drogas indigentes que mereciam mesmo morrer, viados que viciavam ate as crianças para ter lucro. Este esquema estava nos trilhos por quinze porra de anos. Agora tinha que foder tudo? O que eu vou fazer? Este vexame não vou passar, nem morto. Mostrar minha cara na tevê, meus vizinhos vão me ver na tevê como o supra suma do banditismo, estes putos que jogam golf comigo no country club vão fingir que não fazem nenhuma sujeira nem desviam milhões de dollares por ano dos cofres destas porras de empresas que dirigem, comigo não seus viados, filho da puta, NÃO MESMO!!!”. Reginaldo entrou totalmente bêbado no quarto tirou o fundo falso da gaveta e pegou seu eagle .40 importado de lá e sentou olhando para esta beleza de arma por uns instantes. Passou tudo que conquistou na vida, suas namoradas, aquela putinha da vizinha na praia que deu na primeira noite, a márcia na faculdade que insistia que o punk era a maior invenção da musica, sua amante Claudia uma menina burra que de 18 anos que gostava de trepar de quatro, sua mulher Joyce que sempre lhe fez tudo na vida e que ele amava sinceramente. Pensou na sua casa na praia, seu apartamento cobertura em um bairro nobre que não era pouca coisa não, seu jaguar na garagem sonho de muitos babacas sem culhões para saber como ganhar o verdadeiro dinheiro. Fechou os olhos e pos a arma na testa sentindo o cano frio encostado ali, ele suando frio, parado como uma estatua e o dedo coçando no gatilho. Seu cérebro corria a cem mil por hora e perdeu a noção de tempo. Chegou o momento de mostrar que era homem de verdade e apertar a merda do gatilho para evitar um escárnio publico e ir para cadeia. Quando decidiu por fim em tudo abriu os olhos e viu Joyce parada na sua frente. Ai afrouxou tudo. Se jogou aos pés dela e pediu perdão por tudo. E hoje estou aqui, numa clinica para doentes mentais de classe media, olhando tevê com um bando de doidos de pedra e drogados que eu sempre odiei. Tudo que se seguiu foi um espetáculo da mídia acabaram com todos, delegados, policiais, e obvio, alguns traficantes figurões. Mas Reginaldo escapou mais ou menos ileso. E sentado numa sala com uma pintura horrível e moveis acabados ele pensa em voz alta “EU SOU O MAIOR CARA QUE EU CONHEÇO!”.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

maquina de foder....


Fazia tanto calor naquela noite no Tony’s que ninguém pensava em foder. Só em beber cerveja gelada. Tony empurrou duas por cima do balcão para mim e índio Mike, que já estava pronto com o dinheiro na mão. Deixei que pagasse a primeira rodada. Tony, com cara de tédio, tilintou a campainha da registradora e olhou em redor – outros 5 ou 6 caras de olhar vidrado no copo. Abestalhados. Por isso Tony se aproximou de nós.
- quais são as novas, Tony? – perguntei.
- ah, uma merda – respondeu.
- isso não é nenhuma novidade.
- uma merda – repetiu Tony.
- ah, enta ta, uma merda – disse índio Mike.
Bebemos a cerveja
- o que você acha da lua? – perguntei a Tony.
- uma merda.
- é – comentou índio Mike - , quem já esta fodido na terra também vai se foder na lua. Não faz diferença.
- dizem que em marte é quase certo que não tem vida – continuei.
- e daí? – retrucou Tony.
- ah, que merda – expliquei. – dá mais duas.
Tony deslizou de lá as garrafas, depois veio buscar o dinheiro. Tilintou a campainha da registradora. E voltou para nosso canto.
- puta merda, mas ta quente, hein? Prefiro a morte a ter que agüentar este calor.
- para onde a gente vai quando morre, Tony?
- ah, merda. Não to nem aí.
- não acredita no espírito humano?
- pura lorota, uma merda!
Bebemos a cerveja, ruminando no assunto.
- olha – anunciei – vou dar uma mijada.
Fui ao mictorio e lá, como sempre, encontrei Petey coruja. Tirei para fora e comecei a mijar.
- pô, que picinha pequena – comentou.
- quando estou mijando ou pensando, pode ser, mas ela estica muito, sabia? Na hora de meter, cada centímetro aumenta para seis.
- ainda bem, mas espero que não seja mentira, porque daqui dá para ver no máximo cinco.
- é que só estou mostrando a cabeça.
- te dou um dollar para chupar teu pau.
- acho pouco.
- você não ta mostrando só a cabeça. Ta esticando tudo que tem.
- vai te foder, Petey.
- eu sei que vai voltar aqui quando a grana da cerveja acabar.
Saí e me meti de novo no meu canto.
- mais duas – pedi.
Tony repetiu o ritual. Depois se chegou.
- ta tão quente que acho que vou ficar louco – disse.
- o calor sempre revela o que a gente realmente é – repliquei.
- peraí! Ta me chamando de doido?
- e quem não é? Só que a maioria dá um jeito de disfarçar.
- ta legal. Vamos supor que você tenha razão nessa merda. Há quantos caras na terra que ainda regulem bem da cabeça? Existe algum?
- uma porção.
- quantos?
- entre bilhões?
- é, é.
- bem eu diria que uns 5 ou 6.
- 5 ou 6? – retrucou índio Mike – ah, vai tomar no cu.
- escuta aqui – disse Tony – como é que você sabe que eu sou doido? Como é que não aparece ninguém para me levar pro hospício?
- ué, uma vez que todo mundo é maluco, restam muito poucos pra ficar controlando a gente. Por isso é que nos deixam soltos por ai. Sozinhos, com nossa maluquice. De momento é a única coisa que podem fazer. Houve uma época em que pensei que fossem capazes de descobrir um lugar para viver lá em cima no espaço enquanto destruíam a gente. Mas agora sei que também controlam o universo.
- como você sabe?
- porque botaram uma bandeira americana na lua.
- se fossem os russos que tivessem botado a deles?
- não vejo a menor diferença. – respondi.
- então é imparcial? – perguntou Tony.
- sou imparcial com todos graus de loucura.
Todo mundo se calou. Continuaram bebendo. Tony começou a se servir de whisky com água. Ele podia, o bar era dele.
- puta merda, mas que calor! – exclamou.
- é uma merda mesmo. – concordou índio Mike.
De repente Tony desandou a falar.
- por falar em maluquice – começou – ta acontecendo uma coisa pra la de doida agora mesmo, sabiam?!
- lógico – apoiei.
- não, não, não...quero dizer aqui mesmo, no bar!
- é??
- é, sim. E tão doida que da para assustar.
- conta logo de uma vez, Tony. – pedi, sempre pronto para ouvir mentiras alheias.
Tony se curvou ainda mais para nós.
- conheço um cara que tem uma maquina de foder. Não é nada desses papos furados de revista de mulher pelada. Que nem estes anúncios que se vê por ai. Bolsas de água quente com bucetas descartáveis feitas de carne em conserva, essa bobajada toda. Esse tal cara bolou um troço do rabo. Um cientista alemão, que o pessoal descobriu, quer dizer o pessoal aí do governo seqüestrou antes que os russos agarrassem o cara, agora, bico calado, hein?
- claro Tony, claro..
- Von Brashlitz. O pessoal aí do governo fez o que pode para que ele se interessasse por problemas espaciais. Não houve jeito. O velhote era um gênio, mas só tinha essa MAQUINA DE FODER na cabeça. Ao mesmo tempo se acha uma espécie de artista, as vezes cisma em dizer que é miquelangelo... deram para ele uma aposentadoria de 500 dollares mensais apenas para ter aonde cair vivo e não ser internado num hospício.
Ficaram algum tempo de olho nele, depois cansaram ou então esqueceram, mas não parou de receber a pensão e volta e meia mandavam alguém para conversar dez ou vinte minutos com ele por mês, preparar um atestado provando que ele continuava maluco e depois ir embora. Assim andou por ai, de cidade em cidade, sempre carregando aquele baita baú vermelho nas costas. Finalmente, uma noite, me entra aqui no bar e começa a beber. Fala que não passa de um velho cansado à procura de um canto tranqüilo para se dedicar de fato as suas pesquisas. E eu nem dando trela. Vocês sabem que o doido é o que não falta por aqui.
- lá isso é – concordei.
- então o cara foi ficando cada vez mais bêbado e terminou se abrindo comigo. Tinha inventado uma boneca mecânica capaz de dar uma foda com um homem como nenhuma mulher de verdade conseguiu dar ate hoje! E com a vantagem de dispensar camisinhas, e ainda não tem que suportar um montão de frescuras e bate bocas!
- ando atrás de uma mulher destas – afirmei – desde que nasci.
Tony soltou uma risada.
- e quem não anda? Pensei que fosse louco, claro, ate que uma noite fechei o bar e fui com ele a pensão onde morava e ele tirou a MAQUINA DE FODER de dentro do baú vermelho.
- e...
- foi o mesmo que ir pro céu sem ter que morrer.
- deixa eu adivinhar o resto – pedi.
-adivinha.
- Von Brashlitz e a tal MAQUINA DE FODER estão lá em cima, aqui no bar, neste instante.
- positivo – disse Tony.
- quanto custa?
- vinte pratas por cabeça.
- vinte pratas pra foder uma maquina?
- ele superou qualquer Criador. Você vai ver.
- o Petey coruja me chupa e ainda me paga um dollar.
- o Petey coruja ate é legal, com a invenção que bota Deus no chinelo.
Entreguei meus vinte dollares.
- mas, palavra, Tony, se for alguma maluquice de piada de com bolsas de águas quente, você perde o melhor freguês deste bar!
- foi você mesmo quem disse : de um jeito ou de outro a gente não passa de um bando de doidos, resolve.
- eu topo. – decidi.
- e eu também. – disse índio Mike – toma aí meus vinte.
- tem que compreender que só guardo a metade. O resto fica pro Von Brashlitz. Com a inflação e os impostos 500 pratas de aposentadoria não é muita coisa e o Von B. bebe pra caralho.
- vamos nessa – propus - , você já ganhou 40 pratas.
Tony abriu uma divisória do bar.
- passem por aqui. Subam a escada dos fundos. Basta chegar lá em cima, bater e dizer “tony nos mandou aqui”.
- em qualquer porta?
- de numero 69.
- evidente, porra, tinha que ser.
- evidente, porra – repetiu tony – e boas fodas.
Achamos a escada e subimos.
- o Tony é capaz de qualquer negocio pra fazer piada – comentei.
Atravessamos o corredor. Lá estava: numero 69.
Bati na porta:
- O Tony nos mandou aqui.
- ah, cavalheiros, entrem, por favor.
Vimo-nos diante de uma aborto da natureza, um velhote com cara de tarado, copo de birita na mão, óculos com lentes fundo de garrafa, que nem nos antigos filmes de terror. Pelo jeito estava recebendo a visita de uma coisinha jovem, quase jovem demais, de aspecto frágil e ao mesmo tempo forte.
Ela cruzou as pernas, exibindo bem o material: joelhos e coxas de nylon e precisamente aquele naco de carne. Era só xota e tetas, pernas de nylon, olhos risonhos de azul transparente.
- cavalheiros...minha filha, Tânia...
- como é que é?
- ah sim, eu sei, sou tão...velho...mas que nem o mito do negro de pau grande, existe também o mito dos velhos alemães assanhados que nunca param de foder. A gente acredita no que bem entende. Seja como for, esta aqui é minha filha, Tânia...
- oi, pessoal - saltou, sorrindo.
Aí todo mundo olhou para o deposito onde se lia: DEPOSITO DA MAQUINA DE FODER.
O velho terminou a birita.
- quer dizer então...que vieram dar a melhor FODA de suas vidas, ya?
- papai! – ralhou Tânia - , quando é que vai deixar de ser grosso?
E cruzou outra vez as pernas, ainda mais alto, e eu quase cheguei ao orgasmo.
Aí o professor acabou com a nova dose de birita, depois se levantou e foi ate a porta onde se lia DEPOSITO DA MAQUINA DE FODER virou-se para nós, todo sorridente, e começou a abrir a porta bem devagar. Entrou e saiu empurrando uma coisa que mais parecia um leito de hospital ambulante.
Não tinha NADA em cima da cama, era uma simples carcaça de metal.
O profe veio empurrando esse troféu e parou diante de nós . aí começou a cantarolar uma musica horrenda, que só podia ser alemã.
A carcaça metálica, com um buraco no meio, e o profe tinha uma latinha de óleo na mão. Enfiou no buraco e se pôs a esguichar ali dentro uma quantidade bem grande, enquanto cantarolava aquela maluquíssima canção alemã.
Sem interromper o que fazia, olhou por cima do ombro e disse: “chocante, ya?” e depois continuou com aquilo, apertando a latinha.
Índio Mike me olhou, forçou uma risada e cochichou:
- puta merda, fomos tapeados de novo!
- é – concordei – parece que faz uns cinco anos que não dou uma trepada, mas só se for louco que é que vou meter meu pau nesse monte de chumbo duro.
Von Brashlitz deu uma risada. dirigiu-se ao balcão de bebidas, encontrou outro litro de birita, despejou um bocado no copo e sentou-se a nossa frente.
- quando lá na Alemanha a gente começou a sentir que a guerra estava perdida e o cerco começou a apertar – ate a batalha final em Berlim – logo se viu que os rumos tinham mudado – a verdadeira guerra então foi ver quem ficava com o maior numero de cientistas alemães. Se ia ser a Rússia ou se seria a América – esses eram os que iriam chegar primeiro na lua, em marte, em tudo quanto é parte. Bem, no fim não sei realmente no que é que deu... numericamente ou em termos de supremacia intelectual cientifica. Só sei que os americanos conseguiram me localizar antes, me seqüestraram, levaram num carro, me deram bebida, encostaram pistolas na minha cabeça, prometeram mundos e fundos, falaram feito doidos. Assinei tudo...
- ta legal – atalhei – a aula de historia esta ótima, mas mesmo assim não sinto a mínima vontade de meter minha pica, a minha pobre picinha, neste traste de metal laminado ou coisa que o valha!! Pena que os russos não te enfuneraram primeiro! Quero minhas 20 pratas de volta!
Von Brashlitz quase se finou de tanto rir:
- hihihihihi... não viu que era só uma piadinha, né? Hihihihihihihi!!!
Guardou novamente aquele amontoado de chumbo no armário. Bateu a porta com um estrondo.
- oh hihihihihihi!
E entornou nova dose de birita.
Von B. serviu-se de outra garrafa. Não resta duvida que bebia feito gente grande.
Cavalheiros, eu sou um artista, um inventor!a minha MAQUINA DE FODER é, na verdade, minha filha Tânia...
- outra piadinha, Von? – interpelei.
- piadinha um catso! Tânia! Vai lá e senta no colo do moço!
Tânia riu, se levantou, veio na nossa direção e sentou no meu colo. MAQUINA DE FODER? Não dava para acreditar! A pele dela era pele, ou ao menos parecia, e a língua, que língua, que me espetou no fundo da minha boca quando nos beijamos, nada tinha de mecânica – cada movimento era diferente, reagindo aos meus.
Entrei logo em ação, rasgando-lhe a blusa para apalpar os seios, baixando as calcinhas com uma tesão como há anos não sentia e então nos atracamos; não sei como, estávamos em pé – e peguei-a assim mesmo, puxando as mechas daquela longa cabeleira loura, inclinando-lhe a cabeça para trás. Depois, esticando o braço e enfiando-lhe o dedo no cu, continuei a meter ate levá-la ate o orgasmo – dava para sentir as palpitações; e também gozei.
Foi a melhor fode de toda minha vida!
Tânia entrou no banheiro, se limpou, tomou banho e se vestiu novamente. Para índio Mike, pensei.
A maior invenção da humanidade – afirmou Von Brashlitz, bem serio.
Tinha toda razão.
Aí então Tânia voltou e sentou no MEU colo.
- NÃO! NÃO! AGORA É A VEZ DO OUTRO! VOCÊ ACABOU DE FODER COM ESSE AÍ!
Ela pareceu não ouvir. Achei ate estranho, inclusive para MAQUINA DE FODER, porque, de fato, nunca fui bom de cama.
- gosta de mim? – perguntou.
- gosto.
- também gosto de você. Estou tão contente. Eu...nao sou de verdade. Já sabia, né?
- eu te amo, Tânia. É a única coisa que sei.
- puta que pariu! – berrou o velho – mas esta MAQUINA DE FODER!
Dirigiu-se a uma caixa envernizada, com o nome TÂNIA impresso de um lado. Uma porção de fiozinhos saiam dela. Havia também mostradores, varinhas que tremiam de um lado para outro, uma profusão de cores, luzes a piscar, apagando e acendendo, uma serie de tique-taques... Von B. era o cafetão mais doido que já tinha visto na vida. Não parava de mexer nos mostradores. Depois olhou para Tânia:
- 25 anos! Porra, quase uma vida inteira para montar você! Tive ate que esconder do HITLER! E agora... está querendo virar simplesmente uma puta vulgar!
- não são 25 anos – protestou Tânia – eu tenho 24.
- viu? Ta vendo? Igualzinho uma puta da zona!
Virou-se para os mostradores.
- você trocou a cor do batom – comentei.
- gosta?
- se gosto!
Se curvou e me deu um beijo.
Von B. continuava as voltas com os mostradores. Comecei a desconfiar que ele ia sair vitorioso.
- deve ser algum fio retorcido na maquina – explicou ao índio Mike – confie em mim. Já vou consertar, ya?
- tomara – retrucou índio Mike – estou aqui esperando com 35 centímetros e 20 pratas a menos no bolso.
- eu amo você – disse Tânia para mim – não vou foder com nenhum outro homem. Se não puder ficar com você, prefiro ficar sem ninguém.
- eu te perdôo, Tânia. Desde já, por tudo que você fizer.
O profe estava ficando de saco cheio. Não parava de girar os mostradores, sem o menor resultado.
- TÂNIA! Ta na hora de foder com o OUTRO! Já estou...ficando exausto...tenho que tomar um trago...dormir um pouco...Tânia...
- ah – retrucou ela – velho nojento fodido! Você e seus tragos, e depois me mordendo as tetas a noite toda, sem deixar eu dormir! Enquanto você não fica nem de pau duro direito! Seu asqueroso!
- WAS???!!!
- EU DISSE QUE VOCÊ NÃO FICA NEM DE PAU DURO DIREITO!
- você me paga, Tânia. Não inverte os papeis, fui eu que te criei!
Não parava mais de mexer com a varinha mágica. Da maquina, bem entendido. Estava bastante irritado e dava para perceber, de certo modo, que a raiva contribuía para aumentar uma vitalidade, que no fundo, não possuía.
- espera um pouco, Mike. Só tenho que ajustar a parte eletrônica! É coisa rápida! Um curto! Olha ela aí!
E se levantou de um salto. Dizer que esse cara tinha sido salvo dos russos...
Virou para índio Mike.
- agora deu! A maquina ta funcionando! Aproveita!
Foi ate a garrafa de birita, se serviu de outra dose cavalar e sentou, pronto para assistir a cena.
Tânia pulou do meu colo e se dirigiu para índio Mike. Fiquei vendo os dois se abraçarem.
Ela abriu a braguilha, tirou o pau dele para fora e... era um pau que não acabava mais, cara! Ele tinha falado 35 centímetros, mas pareciam 50. aí Tânia segurou o colosso com ambas as mãos.
Mike gemeu, deslumbrado.
Foi então que ela puxou com toda força e arrancou o pau inteirinho do corpo dele. E jogou no chão.
Vi aquele troço rolar por cima do tapete feito salsichão desvairado, deixando melancólicos rastros de pingos de sangue, e terminar batendo contra a parede. E ali ficou, imóvel, como algo que possuía cabeça, mas destituído de pernas e sem ter onde se meter...o que era pura verdade.
A seguir, chegou a vez dos BAGOS virem voando pelo ar afora. Uma visão roliça, pesada. Foram se espatifar simplesmente no meio do tapete e, à falta de saber o que fazer, resolveram sangrar.
E foi o que fizeram.
Von Brashlitz, herói da invasão américo-sovietica, contemplou estarrecido o que restava do índio Mike, meu velho parceiros de rodadas de cerveja, aquela vermelhidão toda no chão, a jorrar sangue pelo meio das pernas – e sumiu feito raio escada abaixo...
O quarto 69 já tinha visto de tudo, menos aquilo.
Então perguntei:
- Tânia, não demora a justa ta aqui; vamos aproveitar a sugestão do numero do quarto para celebrar nosso amor?
- mas evidente, querido!
Já estávamos no finzinho quando a burra da policia tinha que entrar correndo.
Aí um dos cobras do ramo declarou que o índio Mike estava mortinho da silva.
E como Von B. era uma espécie de cria do governo dos estados unidos da américa, começou a surgir uma porrada de gente de tudo quanto era canto – varias autoridades fichinhas – bombeiros, jornalistas, o inventor, a C.I.A., o F.B.I. e diversas outras modalidades de excremento humano.
Tânia foi-se chegando e sentou no meu colo.
- eles agora vão me matar. Procura não ficar triste, sim?
Não disse nada. Aí Von Brashlitz começou a gritar, apontando para tânia.
- ESTOU LHES DIZENDO, SENHORES! ELA NÃO TEM SENSIBILIDADE NENHUMA! SALVEI ESSA DESGRACADA DAS GARRAS DO HITLER! Estou lhes dizendo, não passa de uma MAQUINA!
Todo mundo simplesmente parou. Ninguém acreditou no Von B.
A tal maquina, ou mulher se quiserem, era sem sombra de duvidas. A coisa mais bela que tinham visto na vida.
- ah, merda! Seus idiotas! Toda mulher não passa de uma maquina de foder, então vocês não sabem? Se entregam para quem paga melhor!NAO EXISTE ESSA HISTORIA DE AMOR! É CONTO DA CAROCHINHA, QUE NEM NATAL!
Continuaram não acreditando.
- ISTO AÍ, é apenas uma maquina! Não precisam ter MEDO! VEJAM SÓ!
Von Brashlitz pegou um dos braços de Tânia.
Arrancou completamente do tronco.
E por dentro – pelo buraco aberto no ombro – podia-se enxergar – não havia mais que arames e tubos – coisas retorcidas e esticadas – alem de uma substancia quase imperceptível, vagamente parecida com sangue.
Vi Tânia ali parada, com aquele emaranhado de arames pendendo do ombro, onde antes se articulava o braço. Ela me olhou.
Faz favor, é por mim também! Bem que pedi pra você procurar não se entristecer demais. Fiquei servindo de platéia enquanto todos se aglomeravam em torno dela para esquartejar, currar e retalhar o cadáver.
O que é que eu podia fazer? Abaixei a cabeça entre as pernas e me pus a chorar.
Alem do mais, o índio Mike nem conseguiu tirar proveito das tais 20 pratas que tinha pago.
Passaram-se meses. Nunca mais apareci no bar. Houve um julgamento, mas o governo absolveu Von B. e a maquina dele. Mudei para outra cidade. Bem longe. E um dia, sentado na barbearia, peguei uma revista de mulher pelada. E vi um anuncio : “basta soprar para ganhar sua própria boneca inflável exclusiva! Preço: 29.95$. feita de borracha da melhor qualidade, muito resistente. Acompanha um conjunto de correntes e chicotes. E ainda biquíni, sutiã, calcinhas, 2 perucas, batom e um pequeno pote de lubrificante erótico, incluídos no preço. Empresa Von Brashlitz.”
Mandei uma ordem de pagamento para o endereço indicado. Um numero de caixa postal em massachussets. O profe também tinha se mudado.
A encomenda demorou cerca de 3 semanas para ser entregue. Era de deixar a gente sem jeito, eu não tinha bomba de encher pneus e, depois , fiquei de pau duro quando tirei do pacote aquele troféu. Foi preciso ir ao posto de gasolina mais perto e usar a mangueira de ar que havia lá.
A medida que inflava, ia ficando mais apresentável. Grandes mamicas. Bunda enorme.
- o que é isso que você esta enchendo aí, companheiro? – perguntou o homem do posto.
- escuta aqui, cara, só estou tirando um pouco de ar. Eu compro gasolina aqui à beça, não?
- tudo bem, tudo bem, pode tirar à vontade. Só que, pô, bem que eu gostaria saber o que você tem aí...
- ah, vê se me esquece, ta? Retruquei.
- PUTA MERDA! Olha só que TETAS!
- eu ESTOU olhando, seu cara de cu!
Deixei o sujeito ali boquiaberto, depois joguei a boneca por cima do ombro e voltei para onde eu morava. Levei para a sala.
o grande problema estava por vir. Abri-lhe as pernas e procurei algum tipo de orifício.
Von B. não ia ser tão descuidado.
Fui por cima e comecei a beijar aquela boca de borracha. De vez em quando pegava e chupava uma das gigantescas mamicas elásticas. Botei uma peruca amarela na cabeça da boneca e passei o tal lubrificante erótico em todo o pau. Não gastei muito. Vai ver o pote era para durar o ano inteiro.
Beijei apaixonadamente atrás das orelhas, enfiei-lhe o dedo no rabo, sem parar de meter. Depois saí de cima, acorrentei-lhe os braços nas costas, usando o cadeado e a chave que tinham vindo junto e então peguei as tiras de couro e chicoteei-lhe as nádegas com vontade.
Meu deus, devo estar ficando louco! Pensei.
Aí virei o troféu de frente e meti outra vez. Trepei ate dizer chega. Para falar com franqueza, foi bastante chato. Tive que pensar em dois cachorros fodendo gatas; imaginei 2 pessoas engalicadas no ar enquanto saltavam do terraço do arranha céu do empire state. Procurei me lembrar de uma xota do tamanho de um polvo se arrastando em minha direção, bem molhada, fedorenta e louca para atingir o orgasmo. Pensei em tudo quanto era cacinha, joelho, pernas, tetas, bucetas, que tinha visto na vida. A borracha já estava suando; e eu também.
Te amo, querida! – murmurei num dos ouvidos de borracha.
Tenho vergonha de confessar, mas me forcei a foder naquele repugnante pedaço de borracha. Não havia termo de comparação com tânia.
Peguei uma lâmina gilete e reduzi a boneca a frangalhos. E atirei no lixo, no meio de garrafas de cerveja.
Quantos homens americanos compram estas coisas idiotas?
Ou então a gente capaz de passar por meia centenas de maquinas de foder numa caminhada de 10 minutos por qualquer calçada do centro de uma cidade americana – a única diferença consistindo em fingirem que são humanas.
Pobre do índio Mike. Com aquele pau morto de 50 centímetros.
Pobre de tudo quanto é índio Mike. E de todos os astronautas da terra. E de todas as putas do vietnan e de washington.
Pobre Tânia, com aquele ventre que era uma barriga de leitoa. Veias tinham saído de um cão. Decerto nem cagava ou mijava, só fodia. – coração, voz e língua tirados de corpos alheios – na época existiam apenas 17 transplantes possíveis de órgãos. Von B. andava muito adiantado dos outros.
Pobre Tânia, que comia tão pouco – quase só queijo barato com passas, não sentia vontade de ter dinheiro, imóveis, carros novos e grandes ou mansões suntuosas. Nunca lia o jornal da tarde, não se interessava por televisão a cores, chapéus novos, botas de chuva, conversas na cerca dos fundos com vizinhas beócias; nem por marido que fosse medico, corretor de valores, congressista ou policia.
E o sujeito do posto de gasolina, não cansava de perguntar:
- ei, que fim levou aquele troço que um dia você trouxe aqui e encheu com a mangueira de ar?
Só que agora não faz mais perguntas, mudei de posto de gasolina. Nem sequer corto mais o cabelo na barbearia onde li a revista com o anuncio da boneca de borracha de Von Brashlitz. Estou tentando esquecer.
Quem não faria o mesmo?




escrito por charles bukowski 1920 + 1994. retirado do livro - cronicas de um amor louco.( parte 1 de ereções, ejaculações e exibicionismos). editora LP&M.

sábado, 26 de abril de 2008

uma abelha.


Suponho que como qualquer garoto
Tive um melhor amigo na vizinhança.
O nome dele era Eugene e era maior
Do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
Estávamos sempre brigando.
Eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
Sucesso.

Uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
Para provar que éramos valentes.
Torci meu tornozelo e ele saiu ileso
Como manteiga recém-tirada do papel.

Acho que a única coisa boa que ele fez por mim
Foi quando uma abelha me picou no pé descalço
E assim que me sentei para tirar o ferrão
Ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”

E foi o que ele fez
Com uma raquete de tênis
Mais um martelo de borracha.

Estava tudo bem
Dizem que de qualquer modo
Elas morrem.

Meu pé inchou e dobrou de tamanho
E eu fiquei de cama
Rezando para morrer

E Eugene seguiu em frente e se tornou um
Almirante ou comandante
De alguma coisa de vulto na marinha dos estados unidos
E conseguiu passar por uma ou duas guerras
Sem se ferir.

Imagino-o envelhecido agora
Numa cadeira de balanço
Com seus dentes postiços
Bebendo seu leitinho...

Enquanto eu bêbado
Masturbo esta tiete de 19 anos
Que divide a cama comigo.

Mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
Porque ele nem sequer esta pensando
Em mim.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

sabor de infância.


Nossa estória se passa numa cidade qualquer, num dia normal de sol ameno no outono, segunda feira 10 de abril. Ademir começa a sentir um cheiro indeterminado, meio doce, suave e pouco comum no ar a caminho do trabalho. Segue caminhando seu trajeto normal da sua casa para o trabalho. Não da muita importância ao cheiro, mas o cheiro não lhe é estranho. Ademir da uma cafungada na camisa, debaixo dos braços, mas o cheiro não vem dele. Estranho isso, pensa Ademir, que cheiro será este? Chega no trabalho,liga o computador, mas o raio do cheiro ainda esta nele. Que droga isso, diz Ademir, eu tomei banho antes de sair de casa. Passei xampu, desodorante e das marcas que eu uso a mais de 20 anos. Ademir era fiel a suas marcas, coisa rara num mundo como o de hoje, há 20 anos ele usa o mesmo xampu, o mesmo creme de barba, o mesmo desodorante, toma a mesma marca de refrigerante,etc... Ele ate mesmo quando não tem uma de suas marcas vai a outro supermercado atrás delas. Mas Ademir sente este cheiro que não lhe pertence no seu corpo, não que seja um fedor, por assim dizer, alias não era mesmo um fedor, longe disso. Mas este cheiro faz Ademir pensar, pensar ate demais no assunto. A secretaria bate na porta de seu escritório, Sr. Ademir? Estão te esperando para reunião das duas, diz a secretaria. Esta sentindo este cheiro? Diz Ademir. Que cheiro Sr.? Responde a secretaria.vao andando em direção a sala de reuniões enquanto conversam. Nada, esquece, diz Ademir, que reunião é esta mesmo? A secretaria relembra a Ademir que são os senhores Pedro Fogoso e Julio Cardoso, gerentes da matriz da firma de seguros que Ademir administra a filial. Como o senhor esqueceu disso senhor Ademir? Vão avaliar seu desempenho do ultimo semestre para garantir que o senhor continue empregado aqui. O senhor este bem, seu Ademir? Parece meio distante, pergunta a secretaria, vou lhe buscar um pouco de água. Não precisa, estou ótimo, mas não esta sentindo este cheiro? Pergunta Ademir. Já estavam na porta da sala de reuniões, a secretaria empurra para dentro Ademir meio desajeitado. Já estava dez minutos atrasado.
Boa tarde Ademir, diz Julio, como vão as coisas? Ademir com cara de pateta, resmunga qualquer coisa de volta. Bom, vamos aos negócios? Diz rapidamente o Pedro que é muito serio e não gosta de brincadeiras. Hã? Sim, sim, diz Ademir. Bom Ademir, parece que as coisas estão andando direito por aqui, sua empresa cresceu 5% enquanto as outras filias cresceram cerca de 2 ou 3%. Estão sentindo este cheiro? Pergunta Ademir. Que cheiro, Ademir? Diz Julio que já conhecia Ademir há quase 15 anos, fizeram faculdade juntos, enquanto o senhor Pedro era novo na empresa. Julio uma pessoa tranqüila, divertida, mas sem deixar de ser serio, enquanto o jovem Pedro era seriedade pura e queria mostrar serviço. Senhor Ademir, isso não é hora de piadas, diz Pedro enquanto olha as fichas que trouxe das avaliações anteriores da filial de Ademir. Puta merda, Julio este cheiro esta em mim deste hoje cedo.Que cheiro, Ademir? Esta doido? Julio fala. Nada deixa, diz Ademir. A reunião acaba e Ademir volta a sua sala e diz a secretaria Giorgette que esta muito cansado e vai indo para casa. Mas senhor, são tres e meia da tarde, diz a secretaria. E Ademir sai porta a fora. Caminhando para casa ainda sente este cheiro, parece familiar, e não desgruda dele. Chegando em casa, abre a porta, sua esposa o deixou fazia um mês, fugiu com um jovem que ela conheceu na academia. Ademir se sentiu culpado por isso, foi ele que incentivou a mulher a fazer exercícios. Bem feito, pensava no seu intimo. Que merda de cheiro era este? Será que estou ficando doido? Pensou Ademir antes de dormir.
Uma semana passou, este cheiro maldito não saia de seu corpo. Fazia três dias que não aparecia no trabalho e nem dormia, o cheiro tomou conta de seus pensamentos. Tinha virado uma obsessão era ele e o cheiro. Ademir começou a ficar deprimido, esta idéia fixa não era normal. Pensava que estava enlouquecendo, o que não era muito fora da realidade assim. Ficava vendo tevê, comia pizza na frente da tevê, não fazia mais a barba, estava sem tomar mais banho. Só ele e o cheiro. Ademir depois de quase uma semana finalmente dormiu. Teve o sonho mais real que teve em 52 anos. Ele estava na casa de sua avó, era um dia claro, gostoso como na infância. A avó estava na cozinha e ele na sala. Ela falava de como iam as costuras que ela fazia para fora, das vizinhas que não paravam de fofocar e das novidades das novelas. Ademir se olhou no espelho e estava com uma roupa de marinheiro de criança mas no seu corpo de 52 anos, ficou com muita vergonha de si mesmo naquela situação. A avó ainda falava na cozinha, ele pensava em como tirar aquela roupa horrível e ficar decente para sua velha avó. De repente enquanto ele tentava tirar aquela abominação, sua avó entra na sala com uma travessa. Ele para o que estava fazendo. Olha para a boa velhinha. Era o cheiro! Aquele cheiro que o perseguia havia uma semana, que tirava seu sono, o impedia de trabalhar. O cheiro era dos biscoitos de sua avó. Que ele amava na infância. Nos dias despreocupados na casa da avó, nas tarde vendo tevê e brincando com o cachorro tiao da sua avó. De repente toca o telefone acordando Ademir, ele não esquece o sonho, mas ele atende ao telefone, era a Giorgette perguntando quando ele pretendia voltar ao trabalho. De repente Ademir percebe que o cheiro sumiu. Ele garante que no dia seguinte estará no seu posto. Ademir desliga o telefone e logo em seguida liga para mãe e ela pergunta se esta tudo bem. Ademir responde que agora sim esta tudo na mais perfeita ordem e se era possível ela fazer os biscoitos da vovó.

sábado, 22 de março de 2008

quanto a ligar para uma mulher que não vê ha 20 anos.


Consegui o numero dela com um amigo meu
Ela estava no Texas e o numero tocava:
“alô” disse ela.
“oi, benzinho,” eu disse, “adivinha quem é.”
“eu sei quem é,” ela disse.
Era a mesma voz de educação ríspida
Só que agora enrugada de ódio
“como vai?” perguntei.
“indo bem,” respondeu.
“ainda sou o mesmo,” disse.
“sim” respondeu, “suponho que seja.”
“bem,” disse, “só queria dizer oi.”
Ela não respondeu.
“bem,” disse, “boa sorte. Tchau.”
“tchau,” ela disse.
Baixei o fone.
Bem, pensei, isso não vai sair muito caro na
Conta do telefone.
Caminhei para o quarto e disse à minha
Namorada: “é impressionante, ela ainda me odeia
Após vinte anos”
“você faz isso aflorar nas pessoas,” ela disse.
Caminhei para cozinha para verificar a lagosta
Azul do Maine. Estava fervendo bastante. E à essa altura ela também
Estava.

Charles Bukowski *1920 + 1994
Retirado do livro “tempo de vôo para lugar algum”
Editora Spectro.

sexta-feira, 21 de março de 2008

quando eu crescer quero ser cool!


Quando eu crescer eu quero
Ver filmes do kurosawa, do bergmam e do fellini
E fingir que entendi tudo
Discutindo o sentido deles fumando um charuto de 50$.

Quando eu crescer eu quero
Ler ginsberg, kerouac e ferlinghetti
Tomando whisky no bar dos intelectuais
E dizer que eles mudaram a escrita.

Quando eu crescer eu quero
Curtir jazz
Com a tchurminha que fuma um baseado
E falar que “chet baker é o CARA!” e que “miles davis é DEUS!”.

Quando eu crescer eu quero
ser enólogo
Para discutir as pequenas diferenças
Nos sabores de vinhos de 120$.

Mas eu hoje sou um cara
Que vê filmes
Estilo “todo mundo em pânico” e morre de rir
E não vê nenhum mal nisso.

Mas hoje eu sou um cara
Que ouve PJ Harvey e acha ela linda
E acha o Nick Cave um grande letrista
E não vê nenhum mal nisso.

Mas eu hoje sou um cara
Que toma cerveja kaiser
Mas desde que seja estupidamente gelada
E não vê nenhum mal nisso.

Quando eu crescer eu quero
Ser exatamente como eu sou hoje
E não mudar um centímetro
E este pessoal “cool” que vá para puta que o pariu.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

como você nao esta fora da lista?


Os homens ligam e me perguntam isto.

Você é realmente Charles Bukowski
O escritor?

Sou escritor de vez em quando, eu digo,
Na maior parte do tempo eu não faço nada.

Escute, eles dizem, eu gosto de suas
Coisas – se importa se eu aparecer aí
Com uma dúzia de latinhas?

Você pode trazê-las, eu digo
Desde que você não entre...

Quando as mulheres ligam, eu digo,
Ó, sim, escrevo, sou escritor
Apenas não estou escrevendo nada neste exato momento.

Me sinto tola ligando para você,
Elas dizem, e fiquei surpresa
De achar você na lista telefônica.

Tenho meus motivos, eu digo,
A propósito, por que você não aparece
Pra tomar uma cerveja?

Você não se importaria?

E elas chegam
Mulheres lindas
Boas de corpo e mente e olho.

Frequentemente não há sexo
Mas estou acostumado
Ainda assim é bom
Bom demais olhar para elas...
E em alguns raros momentos
Tenho uma maré inesperada de sorte
Para variar.

Para um homem de 55 anos que não transou
Ate os 23
E não muitas vezes mais ate os 50
Creio que deva continuar listado
Na Pacific Telephone
Ate conseguir o mesmo numero de mulheres
Que os homens normais conseguiram.

Claro, terei que continuar
Escrevendo poemas imortais
Mas a inspiração esta lá.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

besteiras de uma sexta a tarde


Ele lê poemas insanos no banheiro,
Vê lutas de boxe na tevê da sala,
Ouve rock pesado no quarto
E dorme num colchão no chão

Vai dormir as duas da manhã com a tevê ligada e
Acorda ao meio dia e toma uma xícara de café preto,
Acende um cigarro e lê o jornal do dia
Enquanto ouve o radio ainda com cara de sono.

Senta no pátio a tarde para ler,
No sol escaldante de verão, calor para cacete,
Debaixo da parreira, mas a sombra
Não diminui o calor intenso de trinta graus.

Sentado debaixo das folhas na sombra, ele pensa
Que quem vive na sombra de
Outra pessoa
Deve mesmo estar na merda e fodido.

Tudo é uma questão de timming
Escrever, criar, produzir algo
Não é moleza e não dá para forçar
Uma coisa que não quer sair

Então ele para de pensar bobagem e
Volta a atenção ao livro que estava lendo
Se concentra nas palavras do texto
E devagar esquece as divagações.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

canção....


Canção
Allen ginsberg – 1926 - 1997
Livro “uivo e outros poemas”

O peso do mundo
É o amor
Sob o fardo
Da solidão
Sob o fardo
Da insatisfação

O peso
O peso que carregamos
É o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
Nos toca
O corpo,
Em pensamentos
Constrói
Um milagre,
Na imaginação
Aflige-se
Ate tornar-se
Humano –

Sai para fora do coração
Ardendo de pureza –
Pois o fardo da vida
É o amor

Mas nós carregamos o peso
Cansados
E assim temos que descansar
Nos braços do amor
Finalmente
Temos que descansar nos braços
Do amor

Nenhum descanso
Sem amor,
Nenhum sono
Sem sonhos
De amor –
Quer esteja eu louco ou frio,
Obcecado por anjos
Ou por maquinas,
O ultimo desejo
É o amor
- não pode ser amargo
Não pode ser negado
Não pode ser contido
Quando negado:

O peso é demasiado

- deve dar-se
Sem nada de volta
Assim como o pensamento
É dado
Na solidão
Em toda sua excelência
Do seu excesso

Corpos quentes
Brilham juntos
Na escuridão,
A mão se move
Para o centro
Da carne
A pele treme
Na felicidade
A alma sobe
Feliz ate o olho –

Sim, sim
É que isso que
Eu queria,
Eu sempre quis,
Eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.